"Ver televisão é uma coisa que se aprende. O que a princípio me chocara tornara-se normal ao fim de duas semanas. Eu não tinha tido televisão durante dez anos, mas agora, aqui, depois de jantar, liguei-a, cauteloso, uma vez e depois todas as noites. É uma coisa à qual se consegue resistir dificilmente. No princípio fiquei tão surpreendido que nem queria acreditar no que via: a falta de piedade dos telejornais organizados como espectáculo sádico do mundo; o jogo da bola, cancro alimentado pelo estado, ocupando o lugar central da cultura de um povo; programas pornográficos numa antiga emissora da igreja católica; a língua portuguesa num autêntico estado de decadência irreparável. Não compreendia como a Constituição não protegia a dignidade de pessoas permitindo experiências psicológicas de uma violência extrema às horas em que crianças estejam acordadas.(...) Sem televisão as massas tornar-se-iam agressivas, incontroláveis, regrediriam na escala animal."
Pedro Paixão in Portokyoto (2001)
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